Planeamento financeiro

Quanto guardar dos recibos verdes (e quanto podes mesmo gastar)

Recebeste o pagamento de um trabalho e o saldo parece bom. Mas a verdade incómoda é simples: nem tudo aquilo é teu. Parte do dinheiro já está prometida ao Estado, e a forma como o separas hoje decide se vais ter dores de cabeça lá mais para a frente.

Atualizado em 18 de junho de 2026. Conteúdo educativo.

O erro mais comum: tratar tudo o que recebes como rendimento

Quando passas um recibo verde, o valor que entra na conta inclui dinheiro que vais ter de devolver: a Segurança Social, eventualmente o IVA e, no fim do ano, o IRS. Se gastas como se fosse tudo teu, chegas às datas de pagamento sem o dinheiro para as cumprir. É aí que muita gente independente entra em pânico.

A solução não é complicada. É só perceber, à cabeça, que uma fatia de cada pagamento não te pertence. E pôr essa fatia de lado antes de pensares em gastar o resto.

A regra prática dos 20% a 30%

Muitos trabalhadores independentes optam por guardar entre 20% e 30% de cada recibo numa reserva. Não é uma regra oficial nem um valor mágico, é uma aproximação que funciona como rede de segurança para a maioria. Quanto exatamente depende do teu caso, mas como ponto de partida:

  • Segurança Social: a contribuição é de 21,4% sobre uma base que corresponde a 70% do que faturas em prestação de serviços. Na prática, isto dá perto de 15% do que recebes (há um mínimo de cerca de 172,42 € por mês em 2026).
  • IRS: depende muito do teu escalão e do rendimento total do agregado, mas convém ter uma margem reservada, sobretudo se não tiveste retenção na fonte.
  • IVA: se cobras IVA aos teus clientes, esse valor nunca foi teu, está só a passar pelas tuas mãos a caminho do Estado.

Se queres uma estimativa adaptada aos teus números em vez de uma regra geral, vale a pena passar pelo simulador de recibos verdes e ver quanto sobra realmente.

A nuance da retenção na fonte

Aqui está o ponto que confunde quase toda a gente. A retenção na fonte (normalmente 23% para profissões da tabela do art.º 151.º, 16,5% para direitos de autor ou 11,5% para outros serviços) é um adiantamento por conta do IRS, não é o imposto final.

O que isto significa para a tua reserva:

  • Se tens retenção na fonte: parte do teu IRS já está a ser descontada a cada recibo. O cliente fica com essa percentagem e entrega-a ao Estado. Podes precisar de guardar menos para o IRS, porque já estás a "pagar antecipadamente".
  • Se estás dispensado de retenção (algo possível quando prevês faturar menos de 15 000 €/ano): recebes o valor cheio, mas isso é uma armadilha. Nada foi descontado, por isso tens de reservar mais por tua conta para o IRS, caso contrário a nota de pagamento do ano seguinte vai doer.

Por outras palavras: receber mais agora porque não há retenção não quer dizer que ganhaste mais. Quer dizer que ainda não pagaste.

Não te esqueças da Segurança Social

A Segurança Social é o compromisso mais regular: pagas todos os meses, entre o dia 10 e o dia 20, com base no que declaraste no trimestre anterior. Como o valor é relativamente previsível, é a parte mais fácil de provisionar. Se quiseres perceber como funcionam os prazos e a base de cálculo, explicamos isso em detalhe nos artigos sobre a Segurança Social do trabalhador independente e a declaração trimestral.

Atenção a um pormenor: quem abre atividade pela primeira vez está isento de contribuir nos primeiros 12 meses. É um alívio no arranque, mas não acumulas proteção social nesse período, e quando a isenção acaba, a contribuição entra de uma vez.

Cria uma conta só para os impostos

A estratégia mais simples e eficaz é separar fisicamente o dinheiro. Abre uma conta à parte (não recomendamos nenhum banco ou produto em concreto) e, sempre que recebes um pagamento, transfere logo a tua percentagem de reserva para lá. O que fica na conta principal é, de facto, o que podes gastar.

Isto resolve a pergunta "recibos verdes quanto posso gastar?" de forma honesta: podes gastar o que sobra depois de pôres de lado o que pertence ao Estado, não o saldo total.

Estimativa não é certeza

Todos estes valores são uma estimativa para te ajudar a planear. O IRS final depende do rendimento total do teu agregado, das deduções e de escolhas que fazes na declaração anual, por isso qualquer cálculo por recibo é apenas indicativo. Confirma sempre os teus números com a Autoridade Tributária, a Segurança Social ou um contabilista certificado antes de tomares decisões.

Se ainda estás a decidir se os recibos verdes compensam face a um salário, dá uma olhada na comparação entre recibo e contrato para teres o panorama completo.

Faz as contas à tua situação

Põe os teus números no simulador e vê uma estimativa em segundos.

Abrir o simulador

Perguntas frequentes

Quanto devo pôr de lado de cada recibo?

Depende do teu estatuto de IVA, da retenção e da Segurança Social. Como regra prática, muitos trabalhadores independentes guardam à volta de 20% a 30% para impostos e Segurança Social, mas o melhor é simular com os teus números. O simulador dá-te uma percentagem efetiva ajustada à tua situação.

Devo guardar para o IRS mesmo com retenção na fonte?

Se já há retenção, parte do IRS está a ser adiantada. Se tens dispensa de retenção (rendimento anual previsto abaixo de 15 000 €), normalmente não há retenção, e aí faz ainda mais sentido reservar para o IRS, porque vais acertar tudo na declaração anual.

Onde devo guardar esse dinheiro?

Isso é uma decisão tua. Muitas pessoas usam uma conta separada só para impostos e Segurança Social, para não misturar com o dinheiro do dia a dia. Não damos recomendações de produtos financeiros.